SHERLOCK - A SÉRIE

A criação de uma obra-prima ao “modernizar” outra obra-prima. Esse foi o resultado do trabalho feito por Steve Moffat e Mark Gatiss na concepção de um Sherlock Holmes nos tempos modernos, adaptando as clássicas histórias e contos do mais famoso detetive de todos os tempos.

A ideia de adaptar a Magnum Opus de Sir Arthur Conan Doyle foi iniciada durante viagens de trem em 2008 para Cardiff, no País de Gales, quando Gatiss e Moffat trabalhavam em Doctor Who, série de extrema popularidade e importância cultural na Grã Bretanha, da qual ambos são roteiristas. Depois de conversas iniciais e planejamentos, Moffat e Gatiss convidaram Steve Thompson para juntos escreverem o arco do que viria a ser a primeira temporada de Sherlock.
Benedict Cumberbatch e Martin Freeman foram escalados nos papéis de Sherlock Holmes e John Watson respectivamente; e após redimensões de formato, de ritmo, aspectos visuais e tratamentos no roteiro, a BBC anunciou que três episódios de 90 minutos iriam ao ar em 2010. A resposta da crítica foi extremamente positiva, enaltecendo a atuação, a direção e o roteiro da série. Sherlock foi indicado e venceu inúmeros prêmios, incluindo BAFTAs e Emmys em diversas categorias.

A Study in Pink
O piloto da série, baseado na história original A Study in Scarlet, inicia com Watson, um veterano de guerra inválido que procura um apartamento em Londres. Assim ele é apresentado ao enigmático Sherlock Holmes, o único detetive consultor do mundo, com quem tem diálogos e cenas divertidas durante todo o episódio (o famoso alívio cômico no drama). Então, ambos combinam uma visita na clássica – não tão clássica nesse momento e cenário – 221B Baker Street. Holmes é chamado para polícia para ajudar a resolver uma série de suicídios improváveis envolvendo uma pílula de veneno, e Watson o acompanha nas investigações. O episódio segue em um ritmo rápido e intrigante, sem pontas soltas. Detalhes algumas vezes despercebidos são agradáveis surpresas ao assistir novamente – os detalhes, sim, fazem toda a diferença. Ao fim, é revelado que o serial killer Jeff conta com um patrocinador, um fã de Sherlock, chamado Moriarty. No entanto, antes do jogo terminar, Watson atira em Jeff e “salva” a vida de Sherlock. O caso é resolvido, e Sherlock passa a se concentrar em Moriarty enquanto é vigiado pelo seu irmão, Mycroft Holmes.
Nesse episódio está claro o nível de adaptação que Moffat e Gatiss propõem. Traduziram o clássico A Study in Scalet para os dias atuais sem destruir a ideia original. O episódio mostra que Watson e Holmes são fortes como personagens individuais e se complementam quando juntos.

The Blind Banker
Holmes é contratado por um velho amigo para desvendar o caso de uma inexplicável invasão em um banco comercial; e a única pista deixada foi um grafite. Watson divide sua atenção com o caso e seu novo trabalho em um hospital, onde há um interesse amoroso por uma médica chamada Sarah. Sherlock deduz que o grafite é uma cifra destinada a um comerciante do banco. Em uma das cenas mais engraçadas, em que ele perambula pelo escritório agachando e levantando, o comerciante é posteriormente encontrado morto em seu apartamento. Um jornalista também é encontrado morto em seu apartamento no dia seguinte, acompanhado pela mesma mensagem codificada. Holmes e Watson logo descobrem uma rede de contrabando de artefatos valiosos da China para o Ocidente; e que um dos dois homens mortos tinha roubado um pino de jade de muitos milhões de libras. Holmes decifra a cifra (rima não tão intencionada) bem a tempo de ajudar a resgatar Watson, a quem os contrabandistas haviam confundido com Holmes e capturado. Temos prova da ação de Moriarty novamente no final do episódio; e a trama se entrelaça para o desfecho no terceiro e último episódio, onde teremos um embate entre os dois gênios.
Apesar de acima da média, esse é o episódio mais fraco da temporada, pois serve de ponte entre um piloto extraordinário e um final genial. As deduções de Holmes movem a história, e mesmo assim elas parecem ficar em segundo plano em relação a trama principal. The Blind Banker acaba flutuando entre os dois episódios, e funciona para aumentar a tensão e preparar o terreno para o episódio final.

The Great Game
Mycroft Holmes pede que Sherlock investigue a misteriosa morte de um funcionário do MI6, ligada ao desaparecimento de ultrassecretos planos militares. Mas Sherlock é logo distraído por uma série de crimes que ele deve resolver antes que reféns presos em coletes bombardeiros sejam explodidos (Moriarty sabe jogar muito bem). Os casos fazem referência a inúmeras histórias de Conan Doyle, com mais clara influência de The Bruce-Partington Plans. Deduções de sucesso de Holmes finalmente levam ao confronto que todos esperavam desde o início, o clímax da temporada, o embate face to face de Sherlock com o seu arqui-inimigo Jim Moriarty. Depois de muita tensão, de Watson se tornar refém e de uma série de explicações sobre os casos e sobre o papel de Moriarty – que age como consultor criminal – vemos aí diferença entre os dois, como são como yin e yang. O episódio termina com Sherlock apontando a arma de Watson para um colete de homem-bomba entre ele e Moriarty. Um final excelente.
Nesse episódio, Cumberbatch interpreta perfeitamente as tendências sociopatas de seu Holmes, e aborda enigmas de Moriarty com alegria, tratando os inocentes peões no jogo com desdém casual e friamente racional – e ele o faz sem antipatia.
Descobrimos também que as vidas de Moriarty e Holmes foram entrelaçadas desde a infância. O primeiro assassinato de Moriarty foi o que causou o interesse de Sherlock em investigação criminal. Ambos são gênios sociopatas desiludidos com o tédio da vida comum, mas Holmes usa suas habilidades para ajudar a resolver crimes, enquanto Moriarty opta por ser um consultor criminal. Holmes e Moriarty são duas faces da mesma moeda: você pode ver como cada um poderia facilmente tornar-se o outro.
Considerações finais – observando questões técnicas e pontos importantes.
O ponto principal de Sherlock é a sua excelente história, muito bem adaptada por Moffat e Gatiss. Seu grande feito foi elevar o nível do que seria apenas uma adaptação de Sir Conan Doyle; e é muito mais qualitativa que as tentativas hollywoodianas de trazer o clássico às telas. Os ganchos, as nuances, linguagens e características são espetáculos à parte, e a construção da história, muito bem dividida, mostra como a consistência pode ser aliada à criatividade. Uma lição na escrita, de fato. Sherlock mantém um ritmo claro e consistente na sua narrativa, com a sempre inovadora direção britânica. As subjetivas e objetivas, foco e desfoco, aproximação e distanciamento, panorâmicas e enquadramentos mostram características de personagens e emoções da cena muito além de seu simples valor estético. O diretor tem controle total sobre a série, e sabe exatamente o que quer – característica que deve ser apreciada. A atuação da dupla principal é excelente. Ambos incorporam os clássicos e trazem algo novo, não se limitam a copiar. Watson é o clássico britânico, um bom homem, cercado pelos gênios excêntricos Sherlock e Moriarty, que embora sejam os sociopatas já descritos, despertam uma tremenda simpatia.
Sherlock é um frescor inovador, criativo e inteligente, muito bem-vindo em comparação aos comunscrime dramas que vêm ocupado a TV nos últimos anos, como The Mentalist, Lie to Me e as últimas temporadas dos inúmeros CSI.
Concluindo, Sherlock é uma ótima opção para quem quer curtir uma série divertida, inteligente e bem-feita – algo raro na TV nos dias de hoje. Ah, e a primeira temporada já está disponível no Netflix.

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